DA RETOMADA À OFENSIVA
MANIFESTO DCE UFAL

DA RETOMADA À OFENSIVA

Um novo horizonte para o DCE/UFAL: organizar a base e conquistar o futuro!

Juntos! Alagoas 28 abr 2026, 19:07

Ao longo do último ano, o DCE/UFAL – Quilombo dos Palmares voltou a assumir um papel central no movimento estudantil alagoano. Essa retomada não ocorreu por acaso, foi fruto de uma construção política consciente, conduzida por um campo de esquerda radical, independente e comprometido com a transformação concreta da realidade estudantil. Essa articulação reuniu o Coletivo Juntos!, o Movimento Correnteza, estudantes independentes e diversas entidades de base, que, de forma coletiva, foram capazes de reerguer a entidade e conquistar avanços importantes após um período de abandono por parte da gestão “Todos os Cantos”, ligada à UJS e às Juventudes do PT. A crise anterior, agravada por denúncias graves como racismo, misoginia, homofobia e assédio, levou à expulsão desses setores e deixou um cenário de descrédito profundo para o DCE.

Mesmo diante de um movimento estudantil desarticulado, a estratégia adotada apostou na retomada qualificada dos espaços institucionais combinada com a mobilização social e o uso das mídias. Foi assim que se abriu caminho para avançar na conquista de direitos e no enfrentamento à extrema-direita. A gestão “Nada Será Como Antes!”, formada inicialmente pelo Juntos!, Movimento Correnteza, Movimento Força e estudantes independentes, assumiu como tarefa principal reconstruir o DCE após anos de instabilidade. Optou-se por um caminho exigente: combinar presença nas ruas, diálogo com a sociedade civil, ocupação institucional e fortalecimento das instâncias das entidades de base.

A retomada do CONSUNI, a reorganização do Fórum de Entidades de Base (FEB) e do Conselho de Entidades de Base (CEB), além da reativação e regularização de Centros e Diretórios Acadêmicos, foram passos decisivos. Esse processo também envolveu a reconstrução do diálogo com a comunidade acadêmica, devolvendo ao DCE seu papel político.

No entanto, essa trajetória não ocorreu sem contradições. A saída de setores que priorizaram interesses próprios e romperam sem diálogo evidenciou um problema histórico: o sectarismo. A postura do Movimento Força, ao abandonar a gestão de forma abrupta, ignorou a construção coletiva e desrespeitou o voto dos estudantes que apostaram na unidade. Quando pautas centrais, como a do Restaurante Universitário, antes e agora, passam a ser apropriadas por grupos que se colocam como donos da luta, o resultado é fragmentação e enfraquecimento. Ao invés de fortalecer mobilizações amplas, esse comportamento bloqueia a unidade necessária para conquistas reais, prejudicando o conjunto dos estudantes.

Apesar disso, os setores que permaneceram assumiram a responsabilidade de conduzir o DCE, respeitando o projeto coletivo. Em meio às dificuldades, foi possível reconstruir mobilizações concretas, como a luta pelo Restaurante Universitário em Maceió e Arapiraca. Essas ações resultaram no pagamento de trabalhadores terceirizados e no rompimento de contratos problemáticos pela universidade. Mesmo sem participação significativa dos setores sectários, os avanços demonstraram que a unidade construída na prática é o caminho para garantir direitos.

A recomposição dos cargos abandonados permitiu um novo ritmo de atuação, focado em um programa alinhado às necessidades mais urgentes dos estudantes. Na assistência estudantil, houve avanços expressivos: ampliação de bolsas, melhorias no funcionamento do Restaurante Universitário e aprovação do orçamento para reforma e ampliação do RU do Campus A.C. Simões. Em parceria com o Coletivo Autista da UFAL, avançou-se na regulamentação das bancas biopsicossociais, garantindo maior inclusão, além de assegurar outros direitos para o grupo vulnerabilizado. No campo das políticas afirmativas, a aprovação das cotas trans marcou uma conquista histórica, acompanhada da campanha “Transicionar as Universidades”. Essa política não apenas amplia o acesso, mas também responsabiliza a universidade pela permanência desses estudantes, com implementação prevista a partir de 2026.2.

No plano institucional, a gestão enfrentou e barrou retrocessos, como o Código de Conduta Discente, substituído pela construção de um Estatuto das e dos Estudantes, que reafirma e cria novos direitos para o segmento estudantil. Também houve avanços na segurança, com mudanças estruturais, a partir do rompimento e alteração do contrato das empresas de segurança e o impulsionamento da construção de uma política concreta de segurança e de políticas de prevenção e enfrentamento ao assédio, preconceito e discriminação. A defesa de uma universidade aberta ao povo se expressou no fortalecimento da extensão e em iniciativas como o apoio à doação de terreno para a Comunidade Tereza de Benguela para garantia de direitos e moradia digna. Paralelamente, avançou-se na democratização interna, com eleições diretas para o CONSUNI e retomada da participação nos espaços da UNE, com eleições democráticas, rompendo com a lógica dos acordões imposta pelas forças da majoritária da UNE em 2023.

Para além da universidade, o DCE esteve presente em lutas nacionais, conectando a pauta estudantil a disputas mais amplas. Atuou contra a escala 6×1, contra o PL da Devastação, em defesa das mulheres, da democracia e do orçamento da educação, além de denunciar violações internacionais como o Genocídio em Gaza, provocando o rompimento de relações da UFAL com o Estado de Israel; e participar de debates ambientais, denunciando a negociata sob a amazônia ao lado dos povos indígenas na Cúpula dos Povos e na COP30. Também contribuiu com a Comissão de Memória, Verdade, Justiça e Reparação da UFAL, resgatando a história da entidade.

Apesar dos avanços, os limites são evidentes. Muitas conquistas ficaram restritas a setores organizados, sem alcançar a maioria dos estudantes. A dificuldade de mobilização massiva revela a distância entre entidades e base estudantil. A participação segue concentrada em militantes e representações formais, sem atingir plenamente o conjunto da categoria.

Esse cenário está ligado à realidade da juventude, marcada pela precarização do trabalho, pela escala 6×1, estágios mal remunerados e bolsas insuficientes. A instabilidade dificulta a participação política, mas deve ser enfrentada como um desafio central. É necessário garantir condições reais de organização, enfrentando jornadas exaustivas que impedem a participação estudantil.

A experiência recente mostra que o trabalho isolado do DCE tem limites. Se, por um lado, acertamos estrategicamente e articulamos as ferramentas necessárias para alcançar novas conquistas, por outro, é evidente a dificuldade que possuem as organizações de juventude como um todo, as entidades de base e, por consequência, o próprio DCE, de romper com a apatia de parcela relevante dos estudantes e levá-los às mobilizações dentro e para além dos muros da universidade. Sem a construção de base pelos Centros e Diretórios Acadêmicos, não há como massificar as lutas. Por isso, é necessário elevar o nível de organização, fortalecendo assembleias, plenárias e a auto-organização estudantil. Sem base, não há mobilização duradoura; sem mobilização, não há conquistas.

O próximo período exige aprofundamento. É preciso ampliar o campo independente, superar o sectarismo e construir unidade real. Isso implica colocar as necessidades dos estudantes acima de interesses particulares e garantir protagonismo coletivo, não restrito a uma vanguarda.

A independência política do DCE é fundamental para enfrentar os desafios atuais. Isso significa autonomia para combater a extrema-direita e também criticar os limites das políticas do Governo Federal. A juventude enfrenta condições cada vez mais duras, e lutar contra isso é lutar pela própria possibilidade de organização, saúde, cultura e lazer.

A crise climática também impõe urgência. Além da exploração dos nossos corpos, a exploração do planeta concretiza cada vez mais que o hoje será menos quente que o amanhã. É impossível discutir às lutas da juventude universitária, sem conectá-las com a luta em defesa do meio ambiente, que se traduz necessariamente pela luta pelo futuro da nossa e das próximas gerações. Não podemos admitir sermos a geração do fim do mundo e precisamos combater à crise climática e, por consequência, o capitalismo que prioriza o lucro de pouco para colocar em risco o futuro e a vida de milhares de jovens. Nesse cenário, as universidades ocupam um papel central nessa disputa: é nelas que a produção científica pode apontar caminhos concretos para a transição energética e a superação dos combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, são esses próprios espaços que revelam, no cotidiano, os impactos da precariedade estrutural, com ambientes insalubres, falta de climatização e ausência de planejamento diante da crise climática. Diante disso, defendemos a construção de uma Política de Enfrentamento e Adaptação à Crise Climática, capaz de preparar a universidade para proteger os mais vulneráveis e garantir condições dignas de permanência estudantil, ao mesmo tempo em que fortalece seu papel na produção de soluções para o futuro.

Nada disso se concretiza sem orçamento. Por isso, é indispensável garantir independência e autonomia para enfrentar as políticas de austeridade fiscal, como o Arcabouço Fiscal e o Novo Teto de Gastos, que seguem comprimindo os investimentos em educação. Hoje já sentimos os efeitos dessa lógica na redução do orçamento da assistência estudantil, comprometendo a permanência de quem ingressa pelas políticas de cotas sociais, étnico-raciais e trans. A luta não é apenas pelo acesso, mas pelo direito de permanecer e concluir a universidade. Defender uma educação pública, gratuita e de qualidade exige disputar o orçamento federal e enfrentar um modelo que prioriza os interesses do capital e dos grandes bancos, enquanto reduz investimentos em direitos sociais. Sem essa disputa, não há como garantir o futuro da universidade pública.

A experiência recente demonstra que é possível reconstruir o movimento estudantil e conquistar avanços, mas o próximo passo exige mais organização, unidade e enraizamento. Para nós, é fundamental construir a organização a partir da unidade na luta, enfrentando a extrema-direita como condição para transformar a universidade e, por meio da ação coletiva, forjar um futuro que se apresente como alternativa concreta para os estudantes da UFAL. Esse é o ponto de partida para enfrentar o aparato burocrático da universidade, que ainda opera como instrumento ideológico, político e econômico de sustentação das elites alagoanas. Ao mesmo tempo, é necessário combater a lógica de gestão neoliberal que sufoca especialmente os cursos de Licenciatura e Artes, tanto na capital quanto, de forma ainda mais grave, no interior, onde a realidade é marcada pela falta de professores, déficits estruturais profundos e ausência de políticas de transporte. Diante desse cenário, é insuficiente e até ingênuo reduzir esses problemas apenas a limitações de ordem orçamentária nacional. 

Diante disso, é em torno desse programa: que enfrenta a exploração dos nossos corpos e do planeta, defende a universidade pública e o financiamento da educação, combate a extrema-direita e mantém uma postura crítica ao Governo e à Reitoria, que o Coletivo Juntos! convoca estudantes, Centros e Diretórios Acadêmicos, entidades, organizações e coletivos auto-organizados, em toda a sua diversidade, a assumir a tarefa de disputar e construir o futuro. Trata-se de impulsionar uma chapa de unidade baseada na luta, na independência política e no fortalecimento das bases, com coragem e compromisso para dar continuidade e aprofundar a defesa de tudo aquilo que o DCE/UFAL – Quilombo dos Palmares representa. Nesse sentido, a defesa da assistência estudantil, da ampliação do Restaurante Universitário, inclusive pras Unidades Educacionais, da melhoria da infraestrutura e campos de prática, como Hospital Universitário do Agreste, e da garantia de transporte digno, universitário, municipal e intermunicipal, deve ocupar o centro das pautas.

O futuro não será concedido: será construído. E depende diretamente da nossa capacidade de transformar indignação em organização — e organização em luta coletiva.


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