50 anos do DCE Livre da USP ‘Alexandre Vannucchi Leme’
Por justiça aos nossos mortos e desaparecidos, contra a violência policial na universidade!
Via Medium.
Há 50 anos, em maio de 1976, o movimento estudantil em luta contra a Ditadura Militar na Universidade de São Paulo dava um passo importante: a criação e refundação de uma entidade representativa dos estudantes da USP que fosse livre e independente, seu Diretório Central dos Estudantes: o DCE Livre da USP ‘Alexandre Vannucchi Leme’. Há aqueles que reconhecem a USP apenas enquanto ponta de lança na luta contra a Ditadura Militar, relembrando a época em que Gilberto Gil apresentou sua canção “Cálice” na Poli, em 1973, mas deve-se reconhecer o papel da instituição na violenta repressão instalada com o golpe em 1964, e como ela se reflete no presente.
Segundo a Comissão Nacional da Verdade (2014), 434 pessoas foram mortas e desaparecidas pela Ditadura Militar no Brasil, sem contar com os milhares de indígenas, camponeses, LGBT+ e periféricos que não tiveram suas mortes reconhecidas e identidades resgatadas. Com a instalação do AI-5 em 1968, dezenas de lideranças e membros dos partidos de esquerda e do movimento estudantil foram assassinadas e tiveram seus corpos ocultados, tática pensada e bem executada para enfraquecer a mobilização contra o regime. Segundo a Comissão da Verdade da USP (2018), ao menos 47 pessoas vinculadas à Universidade de São Paulo foram mortas e desaparecidas pela Ditadura, cerca de 10% de todas as mortes reconhecidas a nível nacional1. Dentre elas, 39 alunos, como Helenira Resende e Luiz Eduardo Merlino, 6 professores, como Ana Rosa Kucinski e Vladimir Herzog, e 2 funcionários.
Em contrapartida a Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI) foi um órgão interno da USP, instalado em 1972 com vínculo ao Gabinete do Reitor, responsável por vigiar, denunciar aos órgãos de segurança da ditadura e levar à tortura muitos dos membros da sua comunidade, mantendo-os informados de tudo que se passava na USP. Em 1982, com o início da gestão do Reitor Hélio Guerra, ele afirma ter dissolvido a AESI e incinerado os documentos encontrados2. A universidade foi responsável pela violação de direitos humanos, perseguição, tortura e assassinato daqueles que a constroem todos os dias, e além disso, extinguiu os documentos comprobatórios dos crimes, dificultando imensamente a posterior busca por verdade3.
Em 1969, o Decreto 4774 foi publicado, reconhecido como o “AI-5 das universidades”. O decreto tornava mais rígidas as punições aos estudantes com ações consideradas subversivas, bem como dar à ditadura controle sobre as entidades estudantis, enfraquecendo sua capacidade de articulação política. Até 1968, as organizações políticas como Ação Popular (AP) e Ação Libertadora Nacional (ALN) tinham como objetivo disputar o DCE oficial, que foi dirigido por Ronaldo Queiroz, posteriormente morto pela ditadura, mesmo que aparelhado pela burocracia, tática inviabilizada pelo avanço do controle governamental sob as entidades5.
Do 30º Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968 e Batalha da Maria Antonia contra o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) em 1969 até a farsa do suicídio de Herzog em 1976, os estudantes nunca se calaram frente à violência de Estado e regime ditatorial praticado neste assombroso período da história Brasileira. Em 1973, o aluno de geologia Alexandre Vannucchi Leme foi sequestrado na USP, torturado no DOI-CODI/SP e morto pelos agentes da repressão, trágico evento que levou milhares para a Catedral da Sé para uma Missa de Sétimo Dia, mesmo frente a todas as ameaças e medo6. De repente, um colega foi morto. O movimento estudantil era cada vez mais silenciado, não apenas com o desmonte e clandestinidade das entidades estudantis e seus membros, mas com tamanha violência que levava ao assassinato daqueles que lutavam. No entanto, este episódio veio a ser marcado enquanto um dos mais decisivos episódios do processo de reorganização do movimento estudantil nos anos 1970, retomando as manifestações estudantis fora das universidades, apesar da alta repressão policial.
Mesmo com os ataques, provocados pela morte de Herzog e a greve da ECA em 1975, os estudantes resistiram e decidiram que era tempo de avançar: em março de 1976, votaram pela criação e refundação do Diretório Central dos Estudantes, o DCE Livre da USP ‘Alexandre Vannucchi Leme’7. PCB, Libelu, PCdoB e demais correntes do movimento estudantil uspiano aprovaram em unanimidade uma homenagem a Alexandre através da nomeação da entidade com seu nome, ato simbólico por memória, verdade e justiça contra a violência de Estado e a ditadura militar.
Em eleições votadas em assembleia para a primeira gestão da entidade, urnas foram roubadas em plena madrugada — potencialmente por agentes do DOPS -, resultando na perda de cerca de 8 mil votos e convocação de uma nova data para as eleições, com vigília para que não fosse boicotada novamente. A AESI/USP compartilhou dados oficiais dos membros do DCE para os órgãos de repressão, colocando em risco todos aqueles que lutavam por uma entidade representativa dos estudantes, mas não foi motivo para que parassem. Um DCE livre significaria uma tão ansiada autonomia aos estudantes, para que não fossem criminalizados e que pudessem se manifestar politicamente contra os crimes da ditadura e do Estado brasileiro, de forma organizada, oficial e independente à Reitoria e ao governo.
Ao longo das décadas, várias entidades estudantis uspianas seguiram o exemplo do DCE e nomearam seus centros acadêmicos em homenagem aos mortos e desaparecidos de seus respectivos cursos: na Psicologia, o Centro Acadêmico Iara Iavelberg (CAII); na História, o Centro Acadêmico de História ‘Luiz Eduardo da Rocha Merlino’ (CAHIS); na Ciências Sociais, o Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais ‘Ísis Dias de Oliveira’ (CeUPES); na Geologia, o Centro Paulista de Estudos Geológicos ‘Ronaldo Mouth Queiroz’ (CEPEGE); na Pós-Graduação, a Associação de Pós-Graduandos USP Capital “Helenira ‘Preta’ Resende”. Essas nomeações servem para lembrar os estudantes com o passar das gerações que a luta não acabou, e que devemos honrar os legados daqueles que tombaram lutando por uma sociedade melhor e mais justa.
Após a redemocratização, a violência de Estado segue na universidade.
Então, 50 anos depois, qual é o papel do DCE? Escrevo este texto no 42º dia da greve da USP de 2026 para celebrar a fundação da entidade e reiterar sua importância. Estamos há mais de um mês parados em luta por condições dignas de estudo e trabalho na universidade, bem como contra as políticas de precarização do atual governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, capacho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Atualmente, o auxílio permanência da USP sequer paga o valor de um aluguel para moradia próxima à universidade. O movimento estudantil é historicamente responsável por processos importantes de lutas sociais no país e pela democratização da universidade, na USP exemplarmente concretizado conjuntamente ao movimento negro com a conquista das cotas étnico-raciais, mesmo que fosse contra a vontade da burocracia universitária — política afirmativa que se mostrou ser um sucesso, e levou a diversos signatários da carta-manifesto contra as cotas à retratação e mudança de opinião8. Agora, as reitorias se orgulham de ter porcentagens mais expressivas de alunos pretos, pardos e indígenas, bem como egressos de escolas públicas, mas evidentemente essa está longe de ser a maioria dos estudantes. Além disso, a universidade não fornece o necessário para que esses estudantes possam viver com dignidade, se formar e ter oportunidades assim como a elite — não apenas entrar, mas permanecer. Isso sem falar sobre acesso indígena, trans e PCD.
A reitoria propôs um estarrecedor aumento de 27 reais no auxílio permanência, que não paga nem um almoço PF em São Paulo, e 5 reais para os moradores do CRUSP, que não paga nem uma passagem de ônibus inteira — já que eles não têm direito à meia passagem de estudante. Como isso pode contemplar estudantes de periferia e que se sustentam sozinhos, moram longe de casa e muitas vezes fazem cursos integrais e que não podem trabalhar? O que resta a esses alunos? Abandonar a universidade pública, uma chance de uma vida com melhores condições e seus sonhos? -. Por isso, com participação central do DCE, os estudantes ocuparam a Reitoria pela primeira vez nos últimos 13 anos. O grande palácio gradeado da elite universitária foi, por 3 dias, o local em que pudemos reivindicar que o estudante pobre pudesse permanecer.
O que recebemos em troca? Uma ação truculenta da Polícia Militar do governador Tarcísio, que bateu nos estudantes às 4h da manhã enquanto dormiam, apreendeu seus pertences e quer puni-los pelo processo de ocupação9. Não foi a primeira vez que a violência policial tomou o campus Butantã após a redemocratização. Em 2009, a Polícia Militar voltou a invadir e atuar nos espaços da USP após 30 anos, sem poupar na bala de borracha, na bomba e no gás lacrimogêneo10. Em 2011, a PM teve uma base instalada bem no portão principal do Campus Butantã, a Administração da FFLCH foi ocupada contra o convênio PM-USP após 3 estudantes terem sido detidos com maconha na unidade11, e uma reintegração de posse ocorreu em ocupação da Reitoria com ação de 400 Policiais Militares, que resultou na detenção de 73 pessoas12. Cabe aqui uma comparação, mesmo que distante, à invasão do CRUSP após a implementação do AI-5, em dezembro de 1968, com relatos de lembranças de moradores do CRUSP do período em que dormiam no chão para evitar balas nas paredes, disparadas pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), bem como a entrada de 17 tanques e ordem de evacuação aos moradores, revistando estudantes com fome e apenas com a roupa do corpo, além de confiscar pertences considerados subversivos13.
A mesma PM, herança da violência da escravidão e da ditadura militar, que mata nas favelas todos os dias, responsável pela operação Verão, pelos crimes de maio de 2006, também espanca estudantes na universidade. Qual é a diferença entre uma AESI que denuncia e criminaliza o movimento estudantil e estudantes militantes ao ponto de levá-los ao DOI-CODI para serem torturados e até mortos, e uma Reitoria que viu e permitiu a PM armada dentro da ocupação 24h por dia e depois se faz de ingênua alegando que não sabiam da desocupação violenta? -. Eles sabiam, é claro que sabiam, e foram coniventes, provocando, inclusive, um racha institucional. Professores e unidades que estavam condenando o movimento estudantil por “depredação do patrimônio” — a derrubada de caríssimas portas de vidro, diga-se de passagem -, passaram a condenar a Reitoria pela ação policial truculenta, pois a integridade física dos estudantes deve ser prioridade, bem como a autonomia universitária. Os docentes aprovaram greve em assembleia da Associação de Docentes da USP (Adusp) ontem (25/05/26, 41º dia de greve), e além da campanha salarial, também reivindicam o retorno das negociações com os estudantes com propostas efetivas da reitoria, e os funcionários, que deram início à mobilização com uma greve vitoriosa, também sempre estiveram ao nosso lado. Além disso, a violência também provocou indignação e apoio da opinião pública e da sociedade aos estudantes, bem como grandes atos que ocuparam as ruas da cidade de São Paulo.
Em 2007, segundo a Folha14 [14], a desocupação da Reitoria após 51 dias foi realizada de forma pacífica, após deliberação em assembleia, ao som de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, mesma música cantarolada na missa de Alexandre em 1973 [15]. Era pra ter sido assim.
A desocupação de 2026 não ocorreu com o aumento do auxílio PAPFE, mas com violência policial remanescente da época da Ditadura. 50 anos depois, é papel do Diretório Central dos Estudantes garantir aos estudantes condições de luta e mobilização política, além de ser linha de frente na luta por justiça social. É por isso que devemos celebrar os 50 anos do DCE e o legado deixado por Alexandre Vannucchi Leme. Contra a criminalização do movimento estudantil, pela não-retaliação, contra a violência policial, pelo aumento da permanência estudantil e por uma universidade pública do povo.
Estudante organizado não se cala e nada teme. E viva o DCE Alexandre Vannucchi Leme!
- Mais informações sobre os mortos e desaparecidos da USP podem ser encontradas no Relatório Final da Comissão da Verdade da USP, publicado em 2018. Disponível em: https://sites.usp.br/comissaodaverdade/relatorio-final/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Chrispiniano, José; Picanço, Marcy; Gonzalez, Marina. Filha bastarda da USP, AESI desempenhou diferentes papéis na repressão interna. Revista ADUSP. Out, 2024. pp. 37–48. ↩︎
- Para mais informações sobre a AESI, conferir o Volume 1 do Relatório da Comissão da Verdade da USP. ↩︎
- DECRETO-LEI Nº 477, DE 26 DE FEVEREIRO DE 1969. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960-1969/decreto-lei-477-26-fevereiro-1969-367006-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Mais informações sobre as entidades estudantis em: https://www.une.org.br/noticias/estilhacos-de-memoria-sobrevida-e-dissolucao-da-une-1969-1973/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Sobre a história de Alexandre Vannucchi Leme, seu assassinato e consequências em mais detalhes, recomendo o podcast e livro de mesmo título “Eu só disse meu nome”, de Camilo Vannuchi. ↩︎
- Chrispiniano, José. Na criação do DCE Livre, uma derrota da Ditadura. Revista da Adusp. out, 2004. pp. 69–73. ↩︎
- Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/2022/08/29/assinei-carta-anticotas-mas-hoje-sou-contra-seu-fim-diz-maria-herminia.htm e https://educacao.uol.com.br/noticias/2022/08/29/me-tornei-defensora-das-cotas-raciais-na-sala-de-aula-diz-lilia-schwarcz.htm. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/ocupacao-na-usp-policia-abre-inquerito-para-investigar-estudantes/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Disponível em: https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2009/06/apos-30-anos-pm-volta-a-agir-na-usp/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Disponível em: https://juntos.org.br/2011/10/nota-oficial-sobre-a-ocupacao-da-administracao-da-fflch-usp/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Disponível em: https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/11/1003217-tropa-de-choque-inicia-retirada-de-estudantes-da-reitoria-da-usp.shtml. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎
- Para mais informações sobre a invasão do CRUSP, consultar o Volume 9 do Relatório Final da Comissão da Verdade da USP, que trata exclusivamente de depoimentos de ex-estudantes. ↩︎
- Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2007/ocupacao_na_usp/. Acesso em: 26 maio 2026. ↩︎