A conjunção mortal de Bolsonaro, CBF e Conmebol
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A conjunção mortal de Bolsonaro, CBF e Conmebol

Jair Bolsonaro, Rogério Caboclo, Coronel Nunes e Alejandro Dominguez são os verdadeiros responsáveis pela estupidez criminosa de realizar a Copa América no país epicentro da pandemia de Covid-19 no mundo.

Gabriel de Bem 16 jun 2021, 15:54

“A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia. Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade.”

Eduardo Galeano

De forma inacreditável, a Copa América de 2021 está sendo disputada no Brasil. A explosão de casos positivados de Covid-19, as quase meio milhão de mortes de conterrâneos brasileiros, o colapso sanitário, nada disso impediu o governo Bolsonaro de responder urgente e favoravelmente ao e-mail do presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, exigindo que a competição fosse realizada no país.

Logo após o povo colombiano ter rejeitado a realização do evento no país, a partir da grande revolta popular que se iniciou final de abril e se estende até hoje; e o governo argentino ter rejeitado a competição com o aumento do número de casos de Covid-19 na Argentina, Bolsonaro aceitou sediar a 4ª Copa América em cinco anos no Brasil. Evidentemente essa costura política da morte passou pelas mãos de Rogério Caboclo, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e foi abraçada pelo genocida Jair Bolsonaro.

Acusado de assédio moral e sexual por sua ex-secretária, Caboclo foi afastado do mais alto cargo da CBF. Os jogadores da seleção masculina, quando tiveram a oportunidade de entrar para a História rejeitando a participação neste torneio, foram covardes, recuaram de uma posição de maior enfrentamento e, portanto, não surpreenderam. O gol de placa, por óbvio, veio da seleção brasileira feminina que, antes do jogo contra a Rússia, entrou em campo dando o recado aos poderosos Cartolas (que rejeitam, mas comandam o futebol), em geral, e, especificamente, ao Caboclo: ASSÉDIO NÃO. Além do grave caso de assédio, o agora presidente afastado da CBF é investigado em diversos escândalos de corrupção, situação semelhante aos três últimos comandantes da entidade, Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, banidos do futebol pela FIFA.

O afastamento de Caboclo é importante, principalmente pelo passado de impunidade dos dirigentes da CBF, sempre extremamente blindados dos escândalos de corrupção que cercam a mais alta cúpula do futebol brasileiro. É uma vitória de quem ama o futebol e acredita que o esporte é muito maior que qualquer dirigente corrupto. Caboclo é inimigo do futebol, assim como foram seus antecessores a frente da entidade brasileira

No lugar de Caboclo, assume interinamente a CBF o Coronel Nunes. Sim, um coronel. Antônio Carlos Nunes já havia assumido o comando da entidade e ficou nacionalmente conhecido por ter votado no Marrocos como sede oficial da Copa do Mundo de 2026, quando o acordo entre as entidades de futebol da América Latina era apoiar a candidatura de Canadá, Estados Unidos e México. Não há como ter esperanças de que os rumos da principal entidade de futebol do Brasil serão melhores sob o comando de Nunes. Além de ser amigo íntimo de Marco Polo Del Nero, banido do futebol, Coronel Nunes foi comandante militar e prefeito biônico de Monte Alegre (PA) – ou seja, foi investido no cargo sob a égide da Ditadura Militar brasileira, com a ausência do sufrágio universal.  Além disso, Nunes liderou, na década de 1970, uma escalada de violência em Santarém (PA), inclusive com relatos de missões de extermínio dos povos indígenas. 

Evidente que a Copa América de 2021 foi enfiada goela abaixo dos brasileiros por motivos puramente econômicos. Renderá milhões de dólares para a Conmebol e a CBF. Só com os direitos de transmissão (comercializados para emissoras) e patrocínios, a Confederação Sul-Americana de Futebol receberá cerca de 120 milhões de dólares – o equivalente a 25% de todo o faturamento anual da entidade. A CBF, por sua vez, lucrará outros milhões de dólares com os direitos da transmissão das partidas da Seleção Brasileira. Aliás, não é por acaso que o SBT está transmitindo os jogos da Copa América. Fábio Farias, genro de Silvio Santos, é chefe do Ministério das Telecomunicações do Governo Bolsonaro. Uma grande coincidência. 

Isso deve e precisa ser denunciado. Mesmo que o Brasil esteja passando pela mais profunda crise econômica, social e sanitária, com milhares de vidas ceifadas pela Covid-19, enfrentando um dos piores momentos da Pandemia do novo Coronavírus no país, a Conmebol, a CBF e o Governo Bolsonaro, como uma espécie de amálgama mortal do futebol, fizeram acontecer a Copa América no Brasil sem que ninguém fosse escutado ou consultado, ignorando todos os protocolos sanitários de segurança. Até o fechamento desta publicação, em pouco mais de 24 horas do início da competição, já foram registrados 52 casos de Covid-19 entre jogadores, delegação e funcionários da Copa América. 

O futebol é o esporte mais popular do Brasil e do mundo. Milhões de pessoas acompanham, torcem, se emocionam e vibram com seus clubes do coração. A brava e complexa luta dos amantes do futebol (jogadores, treinadores, professores e torcedores) precisa estar na direção de um processo profundo de reorganização política do futebol brasileiro, que denuncia o processo eleitoral antidemocrático de escolha da gestão da CBF, que pressiona as direções autoritárias das federações regionais e que influencia nos comandos políticos dos próprios clubes de Série A e Série B.

É necessário, mais do que nunca, unir a luta contra os poderosos e corruptos Cartolas do futebol nacional (pela reestruturação completa do futebol brasileiro) à luta pelo Fora Bolsonaro e por mais vacinas já. O povo brasileiro, amante da cultura do futebol, merece mais. Muito mais. 

Por isso, dia 19 de junho estaremos ocupando novamente às ruas, exigindo a queda do governo Bolsonaro, a aceleração da vacinação do país e denunciando os crimes e os escândalos de corrupção da cúpula do futebol nacional.


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